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A Odisseia, de Homero a Nolan

18 de ago.
4 min de leitura

 

            Com receio de me arrepender, fui conferir a versão de Nolan para a Odisseia. Posso ter gostado de algumas escolhas do diretor, mas fui ao cinema incumbido de ser um chato exigente e nesse sentido minhas expectativas se cumpriram. Quero dizer, a frustração que eu imaginava foi atendida. Não me arrependo de ter visto. Valeu, quando menos para me animar a reler meu surrado exemplar da Cultrix, décadas depois das aulas da graduação na Letras.

 

            Fui ao cinema, por um lado já supondo que Nolan iria desrespeitar o texto de Homero mais do que eu gostaria, por outro, admitindo que esse filme é um dos maiores fatos culturais do ano. Para mim o melhor de 2026 até aqui é O Convite, mas em termos de repercussão, ninguém vai conseguir superar um vencedor do Oscar batendo recorde de bilheteria com uma obra que nos impele a discutir um arco de três mil anos de civilização ocidental.

 

            A iniciativa de levar Homero para as telas é, a princípio, defensável. Diferentemente de alguns clássicos mais prazerosos como Dostoievski ou Shakespeare, o texto original da Odisseia é algo que só se pode recomendar aos ratos de biblioteca mais persistentes. A leitura completa pode ser fascinante, porém árdua. Talvez a tela de cinema seja uma das melhores maneiras de se apresentar ao público atual um texto imprescindível para se entender o percurso da imaginação ao longo dos séculos. Outras produções das aventuras de Odisseu foram realizadas no passado, mas, que eu saiba, nenhuma com efeitos especiais capazes de nos convencer com algum realismo de um mundo habitado por ciclopes, sereias, monstros marinhos e bruxas que transformam homens em animais.

 

            Não lamento que tenha chegado o dia em que Hollywood investiu pesadamente nos sofrimentos do herói de Ítaca em sua longa volta para casa. Tampouco acho que o Nolan seja um diretor desprovido de qualquer mérito. Dentre blockbusters, engulo melhor Spielberg, Scorsese ou James Cameron, mas talvez eles já não tenham mais idade para isso. Do Nolan, reconheço que Amnésia e Interstelar têm roteiros de inteligência bem acima da média. Talvez Oppenheimer e A Origem também, embora errem a mão exatamente naquilo que mais me desagradou em sua Odisseia. Fui desfiando um textão para só agora dizer que concordo muito com a crítica do Carlos Moreno, o professor de Noites Gregas. Moreno aponta que Christopher Nolan sofre de uma incapacidade brutal de lidar com o feminino.

 

Penélope, Calipso, Circe, Atena, Helena, todas estão apagadas no filme. Tímidas, fracas, sem personalidade. Sabemos que os gregos eram bem misóginos, mesmo assim – e ainda que o principal casal da epopeia distinga o homem aventureiro colecionando glórias da mulher que aguarda constante por 20 anos – mesmo assim, para qualquer grego da época, bem acima dos homens mais valentes estão as deusas. A adoração a Atena talvez correspondesse a alguma intuição de que as mulheres teriam uma enorme força em potencial, se lhes fosse dada uma chance. Mas para Nolan, não há vislumbre dessa admiração pelo feminino. Quanto à Helena vivida por Lupita, não sei se foi com sinceridade ou por pressão alheia que o diretor escolheu uma atriz negra, mas o que poderia ter sido uma ousadia interessante se perde com a atuação contida que ele impôs a sua atriz. Como pode uma Helena não seduzir, não brilhar, não envolver? Se é para irritar racistas com uma Helena negra, faça com que ela encante, como se vê nos poemas de Homero. Achei triste que tenha sido reduzida a uma mulher derrotada, rancorosamente vigiada por Menelau.

 

Quase não há contrapeso para a excessiva energia masculina de Nolan. Por isso também temos que amargar um Agamênon com capacete que parece o do Batman, um visual patético para agradar fãs de super-heróis. A cena de Agamênon que não temos no filme é o arrependimento de sua sombra fantasmática no Hades, quando ele diz não ver proveito de glórias após a morte. Este trecho não aparece, mas é possível que algumas passagens inusitadas como esta tenham feito Nolan se sentir autorizado ao maior anacronismo, o de um Odisseu remoendo culpa pela destruição de Troia. Extrapolação ao sabor dos dias atuais. Mas não vejo motivo para não formular a pergunta: se o Agamênon de Homero se arrependeu de morrer por uma glória vã, seria totalmente descabido o Odisseu de Nolan chorar pelas suas vítimas?

 

O Odisseu original não é de todo linear, inclusive por ser resultado de uma tradição oral coletiva. Ele é o grande herói, mas também aquele que diz se chamar Ninguém (no episódio do Ciclope, em detalhe que não aparece no filme). É valente, mas chora copiosamente. Astuto, mas comete alguns erros grotescos. Digno, porém por vezes traiçoeiro. Diplomático em muitos momentos, nada clemente em outros, em especial na vingança contra os pretendentes que cobiçavam Penélope. Em meio a algumas de suas contradições, há brevíssimos trechos em que uma interpretação muito livre poderia dar margem para se explorar algum sentimento de identificação de Odisseu por suas vítimas, mas na epopeia isso é apenas uma faísca que não sustenta muito bem a tese mirabolante do Nolan. A correnteza, o veio principal dos cantos da Odisseia, mostra um Odisseu orgulhoso de suas conquistas bélicas, muito distante do remordimento meio cristão que Nolan levou para o cinema. Mesmo assim, mesmo discordando do diretor, gostei de me ver obrigado a refletir sobre uma possível dificuldade emocional do Odisseu em voltar para casa. A cena das sereias desrespeita Homero, mesmo assim é uma distorção instigante, inteligente e sensível.

 

Somente alguém arrogante e ambicioso como Nolan para se arriscar a algo tão monumental como uma superprodução homérica. Não tinha mesmo como agradar a gregos e troianos (essa foi péssima, me desculpem) e talvez valha como tentativa. Ainda acho que se vocês tiverem que escolher uma única visita ao cinema este ano, prefiram “O convite”, com uma Penélope bem mais ousada (outra péssima, preciso encerrar isso aqui antes que piore). Não vou dissuadir vocês de navegarem até Ítaca, apenas recomendo que deem um jeito (nem que seja por meio de resumos) de cotejar as diferenças entre a epopeia e o filme.

 

           

 

 
 
 

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